Municípios de Maioria Evangélica no Brasil

O perfil religioso do Brasil vem passando por mudanças profundas nas últimas décadas. Aquilo que antes aparecia apenas como uma tendência nas pesquisas demográficas começa agora a produzir efeitos concretos no território.

Dados recentes indicam que 244 municípios brasileiros já possuem maioria evangélica (Tabela 1), isto é, cidades onde o número de pessoas que se declaram evangélicas supera o número de católicos, historicamente o maior grupo religioso do país.

Considerando que o Brasil possui 5.570 municípios, isso significa que aproximadamente 4,4% das cidades brasileiras já apresentam maioria evangélica.

Embora esse número ainda represente uma parcela minoritária do país, ele aponta para uma mudança qualitativa importante: o crescimento evangélico deixou de ser apenas um fenômeno difuso e começa a produzir territórios de predominância religiosa.

Quando um grupo religioso se torna maioria em uma cidade, sua presença tende a influenciar redes comunitárias, padrões culturais, formas de sociabilidade e até a organização social local. Em outras palavras, o fenômeno deixa de ser apenas demográfico e passa a assumir expressão territorial.

Escala do fenômeno no território brasileiro

Quando observamos a distribuição regional desses municípios, percebemos que o fenômeno não está concentrado em uma única região.

Tabela 1 – Distribuição municípios de maioria evangélica por região
RegiãoNúmero de Municipios(%)
Sudeste9137%
Norte7330%
Sul3414%
Nordeste219%
Centro-Oeste135%
Fonte: IBGE – Censo 2022 | Elaboração: AliançaLAB

Dois terços dos casos estão concentrados nas regiões Sudeste e Norte, que apresentam dinâmicas sociais bastante distintas.

Esse dado revela um primeiro insight importante: o crescimento evangélico acompanha processos de urbanização, mobilidade populacional e expansão territorial, e não apenas tradições culturais regionais.

Estados com maior número de municípios de maioria evangélica

Quando analisamos por unidade da federação, alguns estados se destacam claramente.

Tabela 2 – Estados com maior número de municípios de maioria evangélica
EstadoNúmero de Municipios
Rio de Janeiro40
Rio Grande do Sul25
Amazonas25
São Paulo24
Rondônia18
Espírito Santo17
Fonte: IBGE – Censo 2022 | Elaboração: AliançaLAB

O caso do Rio de Janeiro é particularmente emblemático. Mesmo sendo um dos estados mais urbanizados do país, ele concentra o maior número de municípios onde os evangélicos já superam os católicos. Isso sugere que regiões metropolitanas densas funcionam como importantes vetores de difusão religiosa, especialmente em áreas urbanas marcadas por grande mobilidade social e populacional.

Padrões da mudança religiosa

A análise espacial torna o fenômeno ainda mais visível. Quando os municípios são colocados no mapa, três padrões territoriais começam a aparecer:

  1. Regiões metropolitanas do Sudeste, especialmente no Rio de Janeiro e Espírito Santo
  2. Fronteiras amazônicas, como Amazonas, Rondônia e Pará
  3. Bolsões históricos do Sul, especialmente no Rio Grande do Sul

Esses padrões indicam que o crescimento evangélico ocorre em contextos sociais bastante distintos. Em algumas regiões, ele acompanha processos de expansão das periferias metropolitanas. Em outras, aparece em áreas de fronteira demográfica e ocupação territorial, onde redes religiosas mais flexíveis tendem a se expandir com maior rapidez.

Amazonas: uma nova fronteira da maioria evangélica no Brasil

Entre os estados brasileiros, o Amazonas aparece com destaque no mapa dos municípios de maioria evangélica, somando 25 cidades nesse perfil.

Esse dado chama atenção porque a região amazônica possui características demográficas e territoriais muito diferentes das áreas metropolitanas do Sudeste.

Na Amazônia, o crescimento evangélico costuma acompanhar processos de mobilidade populacional, ocupação territorial recente e transformação urbana.

Muitas cidades da região passaram por mudanças rápidas nas últimas décadas, impulsionadas por migrações internas, expansão econômica e novas dinâmicas sociais.

Nesse contexto, igrejas evangélicas frequentemente desempenham um papel importante na construção de redes comunitárias locais, oferecendo espaços de sociabilidade, apoio social e organização coletiva.

Assim, o caso do Amazonas ilustra bem como o crescimento evangélico no Brasil também acompanha processos de transformação territorial nas fronteiras demográficas do país.

O fenômeno não está restrito ao interior

Um senso comum recorrente afirma que o crescimento evangélico ocorre principalmente em cidades pequenas. Os dados sugerem algo diferente. Entre municípios com mais de 100 mil habitantes, já existem 33 cidades onde a população evangélica supera a católica.

Entre essas cidades aparecem exemplos como: Rio Branco (AC), Duque de Caxias (RJ), Nova Iguaçu (RJ), Serra (ES), Cariacica (ES), Cabo de Santo Agostinho (PE), Parauapebas (PA) e Ji-Paraná (RO).

Isso mostra que a mudança religiosa brasileira também alcançou polos urbanos relevantes e regiões metropolitanas densas. Ou seja, não se trata apenas de um fenômeno interiorano.

Ecossistemas de expansão de Igrejas

Uma análise mais detalhada do mapa revela outro padrão interessante. Municípios de maioria evangélica tendem a aparecer em agrupamentos geográficos, especialmente ao longo de:

  • regiões metropolitanas
  • eixos rodoviários
  • áreas de expansão urbana

Possivelmente, esse crescimento é impulsionado pela formação de ecossistemas evangélicos locais, nos quais diferentes equipamentos e iniciativas atuam de forma sinérgica. Redes de igrejas, movimentos de plantação de igrejas e lideranças regionais tendem a se articular com outros dispositivos institucionais, fortalecendo a presença religiosa no território.

Nesse contexto, a difusão da fé não ocorre apenas por meio de novos convertidos. Ela também é sustentada por uma infraestrutura social mais ampla, que pode incluir meios de comunicação, ONGs, escolas, editoras, ministérios, organizações sociais e redes comunitárias. Esses elementos ajudam a criar um ambiente favorável à circulação de ideias, à formação de lideranças e à consolidação de comunidades religiosas ao longo do território.

O Brasil está entrando em uma nova fase religiosa?

Historicamente, o Brasil foi descrito como um país majoritariamente católico com minorias religiosas.

O que os dados recentes sugerem é uma transformação desse padrão.

O país começa a apresentar um sistema religioso mais complexo, com territórios distintos:

  • áreas de maioria católica
  • áreas de maioria evangélica
  • áreas altamente pluralizadas

Esse tipo de configuração é típico de sociedades em transição religiosa avançada.

Por Livan Chiroma – assessoramento técnico na área de pesquisa e dados AliançaLAB

Mapeando a Fé Evangélica: Insights a Partir do Agregador de Pesquisas com Dados Evangélicos

Mapeando a Fé Evangélica: Insights a Partir do Agregador de Pesquisas com Dados Evangélicos

O Agregador de Pesquisas com Dados Evangélicos traz à tona uma análise dinâmica do cenário religioso brasileiro em constante transformação. A ferramenta centraliza dados dispersos, revelando tendências e dinâmicas no campo religioso. Esta iniciativa oportuniza uma avaliação do cenário missiológico, especialmente nos períodos entre um censo e outro.

Abaixo, alguns destaques do APEDE v 0.1 que ilustram o panorama estatístico atual e suas implicações para a Igreja evangélica do futuro:

  1. Desaceleração do crescimento dos evangélicos: Segundo os dados tabulados pelo agregador, os evangélicos mostram um crescimento contínuo porém desacelerado, com aumento de sua participação de 22,2% em 2010 (último censo) para atuais 27,76%. Potencializado pela atuação pentecostal nas periferias, estratégias de expansão de Igrejas independentes e forte presença em meios de comunicação e política. Todavia no último triênio o grupo cresceu 5%, menos que nos períodos anteriores (12% em 2013-2015 e 2016-2020).
  1. Explosão dos “sem religião”: Comparado aos demais grupos, os “sem religião” foram os que mais cresceram relativamente: 65% em relação a 2010, Segundo os dados coordenados pela agregador. O segmento quase dobrou de tamanho (de 8% para 14,41%, segundo o agregador). Ao longo dos séculos, a substituição de uma religião nacional por outra, de origem exógena e mais fragmentada, pode desencadear um movimento centrífugo capaz de diluir e ressignificar identidades religiosas e, em alguns casos, precedendo uma maior adesão à não religiosidade ou a espiritualidades mais individualizadas. O fenômeno está alinhado às tendências globais de secularização, especialmente em contextos urbanos e entre jovens. Se os “sem religião” seguirem a taxa de crescimento atual, em 2030 (em um possível novo Censo do IBGE) eles representarão aproximadamente 20% da população brasileira.
  1. Estagnação e queda acelerada do catolicismo: Devido a fatores como envelhecimento da base de praticantes, menor adesão de novas gerações e mudanças nos padrões sociais. O percentual de católicos apresentou uma trajetória de queda consistente desde 2012, saindo de um patamar de aproximadamente 65% para 48% em 2024, segundo o agregador. Pode-se afirmar que um potente sinal da Transição Religiosa no Brasil: pela primeira vez em 500 anos o catolicismo representa menos da metade da população brasileira.


Chiroma, Livan. Mapeando a Fé Evangélica: Insights a Partir do Agregador de Pesquisas com Dados Evangélicos. Aliança Evangélica Brasileira, Brasil, 2025.

Livan Chiroma – Teólogo, Comunicólogo e Cientista Social – com ênfase em antropologia (UNICAMP), pesquisador da área da demografia das religiões. Participante da coordenação do AliançaLAB. [email protected]

Origem Religiosa dos Evangélicos em SP


Você já se perguntou se quem chega a uma igreja evangélica já teve outra fé antes? Compreender de onde vêm os novos evangélicos ajuda tanto para analisar a biografia religiosa  dos fiéis, quanto no planejamento de sua missão.

A análise da estatística de pesquisa realizada em 2024 pelo instituto Datafolha revela as dinâmicas de origem dos evangélicos paulistas diante de diferentes gerações.

Na faixa dos 60+, 62% dos indivíduos vieram de dentro do catolicismo, enquanto 31% afirmam não ter tido religião anteriormente.

Já entre as gerações mais jovens (18 a 24 anos), 81% não tiveram nenhuma formação religiosa prévia e apenas 11% dos convertidos vêm do catolicismo. Essa inversão de percentuais mostra que a herança católica, que por muito tempo foi dominante, cedeu espaço para um cenário onde o ambiente secularizado predomina entre os novos convertidos.

Outras tradições religiosas – como Umbanda, Candomblé, Espírita, Budismo e a categoria “Outras” – apresentam números reduzidos em todas as faixas etárias, variando entre 0% e 5%.

Enquanto as gerações mais velhas estavam inseridas num contexto de transmissão religiosa possivelmente familiar e institucional, as gerações mais jovens crescem em um ambiente onde estas tradições têm menor influência.

Os dados sugerem a necessidade de métodos que dialoguem com uma realidade onde as novas gerações chegarão às comunidades sem um histórico religioso consolidado.  Logo, pode-se destacar o desenvolvimento de iniciativas intergeracionais que permitam a integração do legado dos fiéis mais antigos com as demandas de um público que busca uma experiência de fé mais dinâmica. 

Em resumo, os números não apenas quantificam uma mudança nas origens religiosas dos evangélicos paulistas, mas também apontam para o desafio em unir o valor histórico da tradição com a composição de um novo imaginário protestante em uma realidade brasileira cada vez mais secularizada. 

Por fim, o agregador de pesquisas do AliançaLAB apontou que o grupo dos Sem Religião apresentou crescimento expressivo desde o último censo (2010). Neste contexto, de acordo com a tendência, considerando a idade média de conversão, é possível antever que os novos discípulos de Jesus no Brasil virão de um contexto com formação religiosa cada vez menor. 

O Aliança LAB é um Laboratório de Pesquisas e Inteligência Missional desenvolvido pela SEPAL e Aliança Evangélica Brasileira, comprometidas com a produção de dados quali-quantitativos sobre a religião e seus impactos na sociedade brasileira, a análise destes dados e a geração de estratégias para desenvolvimento da Missio Dei pela igreja, em seus diversos segmentos. Conheça mais sobre nosso trabalho e envolva-se. Acompanhe as redes sociais da @missaosepal, @aliancaevangelicabr e @martureocrm